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Casa de Chá do Luar de Outono - Literatura, Música, Arte
Livraria Luar de Outono

Miguel Torga

Identidade


Matei a lua e o luar difuso
Quero os versos de ferro e de cimento
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo coração que se debate aflito
e luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

    * 
    

    Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou;
Canto como um possesso
que na casca do tempo, a canivete,
gravasse a fúria de cada momento
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento

Outros, felizes, sejam rouxinóis
Eu ergo a voz assim, num desafio,
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

       
*

    
Gosto do mar desesperado
a bramir e a lutar
E  gosto de um barco ainda mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar.

    * 
    

    CHICOTADA

Corre, tempo! Depressa!
Que eu oiça o movimento!
Faz ressoar o vento,
O tropel agoirento dos teus passos,
E leva-me nos braços,
Como um pai desumano do passado,
A esse apetecido
E odiado
Altar,
Onde, fiel a um Deus desconhecido,
Me vais sacrificar.

Literatura Portuguesa